TV e Streaming

Por Marcelo Nakagawa

"Para mim, o sucesso não é sobre as vitórias e derrotas. Trata-se de ajudar esses jovens a ser as melhores versões de si mesmos, dentro e fora do campo.” Essa é a mensagem que, na minha opinião, resume Ted Lasso, a premiadíssima série (em 2022, foram 20 indicações e quatro Emmys) do treinador de futebol americano que passa a liderar um time de futebol na Inglaterra. Disponível na Apple TV+, sua terceira e última temporada estreou em março, e o episódio final vai ao ar em 31 de maio.

Mesmo fictícia, Ted Lasso representa um novo tipo de liderança, cada vez mais necessário nas organizações. Para compreender o personagem vivido por Jason Sudeikis, sem dar spoilers, é importante destacar que ele virou exemplo porque demonstra diversas qualidades altamente valorizadas em líderes eficazes.

A seguir, cito algumas delas. Empatia. Ele não busca apenas vencer jogos. Preocupa-se com a equipe e procura entender suas perspectivas e necessidades. Positividade. Otimista, acredita no time e o incentiva a acreditar em si mesmo. Honestidade. Não tem medo de admitir quando comete um erro e trabalha para corrigi-lo. É honesto sobre suas habilidades e expectativas, o que ajuda a criar um clima de confiança. Comunicação. Ouvinte atento, mostra-se claro e direto e evita conflitos desnecessários. Foco nas pessoas. Trabalha para criar um ambiente no qual todos se sintam valorizados e respeitados.

Ao ler essa descrição, muitos poderiam dizer: “Uau! Quero um líder assim!”. Mas quantos diriam: “Uau! Tenho um líder assim!” ou “Sou um líder reconhecidamente assim!”? Desenvolvimento de lideranças sempre foi uma prioridade, já que são elas que conduzirão as organizações para o futuro.

De certa forma, durante o século XX, um padrão no contexto de comando e controle acabou sendo consolidado por lógicas militares e burocráticas. E deu muito certo. A partir de seu instituto de liderança Crotonville, a General Electric (GE), por exemplo, formou líderes que a levaram ao posto de companhia mais valiosa do planeta na virada do século passado.

O mesmo ocorreu com o Centro de Liderança de West Point, referência na formação de líderes corporativos, mesmo pertencendo ao Exército norte-americano. Ambas se tornaram exemplo da era de comando e controle. Líder manda, liderado obedece. Missão dada é missão cumprida.

Mas o século XXI trouxe novas complexidades. A própria GE fracassou sucessivamente, a ponto de acabar desmantelada como conglomerado em 2021. Em uma entrevista dada em 2016 à revista HSM, Vicente Falconi, talvez o consultor mais conhecido do Brasil, definia o que era ser líder naquele momento.

Para ele, liderar era "bater meta, com o time, fazendo a coisa certa”. A definição continua válida e praticada por boa parte do mundo corporativo. Mas a novidade consiste em outra liderança, utilizando a ordem inversa: liderar é fazer a coisa certa, com o time, batendo metas.

Fazer a coisa certa não é simplesmente não fazer a coisa errada. É mais do que isso. É contribuir para um mundo melhor de forma consciente, integrada e sustentável. Fazer com o time, agora, também implica desenvolver uma cultura organizacional mais inclusiva, diversa, colaborativa, inovadora, digital e, particularmente, um ambiente de trabalho mais saudável, feliz e altruísta.

Na questão de metas, o desafio é que objetivos, meritocracia e bonificações, que surgiram como incentivadores de alto desempenho, começaram a causar efeitos graves — na financeirização dos negócios, na precarização do atendimento aos clientes, na saúde mental dos colaboradores e no aumento da toxicidade das culturas organizacionais. Bater metas, muitas vezes, prevaleceu sobre fazer com o time e fazer a coisa certa.

Ted Lasso desembarcou na Inglaterra entendendo pouco de futebol, mas foi justamente o desconhecimento que o tornou inovador. Pode parecer ingênuo ou mesmo ousado trazer alguém que não conhece nada do setor, mas isso já aconteceu diversas vezes, como a chegada de Louis Gerstner à liderança da IBM na década de 1990, vindo do setor alimentício. Mais recentemente, boa parte das principais lideranças empreendedoras ao redor do planeta não possuía experiência prévia, de Elon Musk aos fundadores do QuintoAndar, Vittude e Gympass, no Brasil.

Por coragem, ingenuidade ou sabedoria, Lasso faz o certo, fala a verdade e age com tranquilidade, bom humor e simpatia, seja com a diretoria do time, seja com os jogadores ou os torcedores.

Isso leva à construção de uma relação empática. Em um dos momentos icônicos da série, mesmo o mais ácido dos repórteres o critica apoiando-o. É aqui que entra uma das diversas frases emblemáticas de Lasso: “Fazer a coisa certa nunca é a coisa errada”.

A respeito das lições de “com o time”, a produção traz reflexões sobre se a equipe se limita apenas aos jogadores, sobre relação de equidade com o profissional de nível hierárquico mais baixo ou mais elevado da organização, sobre como lidar com funcionários com desempenhos diferentes. Para engajar seu jogador mais egocêntrico, Lasso faz um drible da vaca sem bola: “Acho que você pode ter tanta certeza de que é um em um milhão que, às vezes, esquece que, lá fora, você é apenas um dos onze".

Por fim, um grande líder precisa entregar resultados. O time de Lasso alcança o sucesso? Você precisará assistir à série para saber. Só destaco que tarefas tradicionais tendem a se tornar cada vez mais automatizadas. A explicação dos motivos de Ted Lasso se mostrar um exemplo da nova liderança apresentada no início deste artigo foi escrita pelo ChatGPT, o assistente virtual baseado em inteligência artificial.

Boa parte do trabalho dos líderes antigos que apenas lidam com comando e controle, cedo ou tarde, acabará substituída por soluções digitais. Assim, caberá às novas lideranças a mais nobre das atividades: ajudar as pessoas de sua equipe a ser as melhores versões de si mesmas, dentro e fora da organização.

Marcelo Nakagawa, com trinta anos de experiência nomercado, é especialista em empreendedorismo e inovação, professor de instituições como Insper e consultor.

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