Nelson Motta
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Nelson Motta

Jornalista, compositor, escritor, roteirista e produtor.

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Nelson Motta

Já tinha ouvido a expressão e achado engraçada, mas entendi melhor quando uma amiga psi me disse que na maturidade se descobriu “sapiossexual”, só sente verdadeira atração sexual por homens que admire intelectualmente. Como, além de uma boa cabeçorra, sempre foi atraente e sensual, até os 40 anos ela pegava os melhores gatos e se divertia com eles. Se gabava que, depois da primeira ficada, nenhum deixou de telefonar no dia seguinte. Agora, nos 50 e depois de dois casamentos ruins, movidos a sexo, só consegue se relacionar com pessoas que ofereçam possibilidades de aumentar seus conhecimentos, de crescer como pessoa. Seu tesão está na proporção de sua admiração, não pelo físico e aparência, mas pela essência e verdadeira energia vital do pretendente. Falamos de uma mulher, mas a sapiossexualidade não faz distinção entre héteros, homos ou bissexuais, só entre a forma e o conteúdo do objeto de desejo.

A atração pela beleza de um homem ou uma mulher é pouco confiável, porque, como se sabe, ela está nos olhos de quem vê, e cada um vê o que quer, vê o que consegue, o que merece. Dizem que os homens se encantam pelo que veem e as mulheres pelo que ouvem, mas há controvérsias. Desde os gregos que o desejo erótico se expressa ou pela atração e conexão física e emocional ou pelo desejo de conhecimento. O sucesso e a felicidade embelezam, a inteligência e a sabedoria também, assim como o pensamento e as ações, a escrita e a fala criam beleza e excitam. O ideal é juntar os dois, mas qualquer idealização é o caminho certo para a decepção. A sapiossexualidade, diz minha amiga, aumenta as chances de relações de qualidade e intensidade, que podem amadurecer sem se desgastar, ao contrário do olhar e das aparências.

Conversei com outro amigo, também psi, madurão e atualmente solteiro depois de dois casamentos com mulheres bonitas mas não especialmente sábias, que lamenta seu passado de “burrossexual”. Lamenta pelas horas e horas, e dias, meses, perdidos com intermináveis conversas idiotas com uma bonitona só para levá-la para a cama e, depois, nem telefonar no dia seguinte. Ele apanhou e aprendeu bastante, e agora também se considera um sapiossexual e escolheu rigorosamente sua atual namorada, que só ele considera belíssima ( são os olhos de quem vê), mas sem dúvida tem estilo, boa história de vida e ótimo papo, como alguém que o estimula a experimentar, a trocar e crescer.

O problema da sapiossexualidade, diz ele, é uma distorção conhecida como “chatossexualidade”, que é a perda do tesão pelo exibicionismo intelectual e pela necessidade de afirmação de cultura e inteligência, com abundância de dados e citações e disposição para polêmicas e papos-cabeça. Mas, além de beleza ou sabedoria, charme e simpatia são indispensáveis, e humor é fundamental. As mulheres e os homens gostam mais de quem os faça rir do que de quem diga frases românticas e juras de amor. É um dos melhores afrodisíacos.

Feliz 2024 a todos.

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