Cultura
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Por — São Paulo

Uma cinebiografia desafinada. Desserviço aos fãs. Superficial. Feita por abutres, focados em lucrar com a morte da cantora. A relação da artista com o pai abusivo, que cedeu os direitos à produção, é floreada. As pauladas da crítica do Hemisfério Norte a “Back to black”, biopic de Amy Winehouse (1983-2011) que chega hoje aos cinemas brasileiros, foram tão duras que uma agente veterana de Hollywood, envolvida no lançamento do filme, disse, de forma reservada, jamais ter registrado reação tão cruel a uma megaprodução. O longa, na gringa, virou a Geni do momento.

— Todos usam as redes para amplificar suas vozes. Não vou desperdiçar a minha batendo de volta. Tenho orgulho do filme. Quem gosta da música de Amy sairá dos cinemas sentindo que nós a honramos — diz ao GLOBO a diretora inglesa Sam Taylor-Johnson, conhecida por “Cinquenta tons de cinza” e diretora de “O garoto de Liverpool”, sobre a adolescência de John Lennon.

É de seu parceiro em “O garoto de Liverpool” o roteiro de “Back to black”. Matt Greenhalgh, elogiado pelo traçado que faz de relacionamentos amorosos, recria o momento, em 2002, em que Amy intuiu viver o grande amor. Como se sabe, era mentira. Mas seu ex-marido, Blake Fielder-Civil (papel de Jack O’Connell), é apresentado como um malandro sedutor. Tanto ele quanto o pai da artista, Mitch Winehouse (Eddie Marsan), não saem tão chamuscados como no documentário “Amy”, de Assis Kapadia, vencedor do Oscar em 2016.

— Na cena em que ela conhece Blake não há um “xi, olha ela caindo na lábia do junkie”, mas um “uma jovem se apaixona perdidamente”, que é como ela se sentiu. O filme é do ponto de vista da Amy — diz a produtora Alison Owen.

Marisa Abela como Amy Winehouse na cinebiografia 'Back to black', de Sam Taylor Johnson — Foto: Divulgação
Marisa Abela como Amy Winehouse na cinebiografia 'Back to black', de Sam Taylor Johnson — Foto: Divulgação

A diretora Sam Taylor-Johnson foi contemporânea de Winehouse. Vizinha dela em Camden Town, curtia a cena musical da época e testemunhou, embasbacada, uma de suas primeiras apresentações. Depois, acompanhou com interesse a trajetória da filha de um motorista de táxi e de uma farmacêutica que venderia mais de 23 milhões de discos em oito velozes anos.

— Mas nunca batemos um papo. Eu entrava num bar, ela tinha acabado de sair, e vice-versa. O destino era nos encontrarmos desta forma, com o filme — diz a diretora.

Foco positivo

Pensado como tributo à artista, o filme ficou duas semanas no topo dos mais vistos no Reino Unido, e já faturou US$ 34 milhões mundo afora. Levou os britânicos ao cinema, apesar das críticas negativas, com uma campanha que apresentou “Back to black” como peça central para se entender a mulher que um dia cantou que “lágrimas secam por conta própria” — mesmo sem olhar pela fechadura como o documentário “Amy”, pontuado por vídeos de arquivo da artista e de pessoas próximas e rejeitado pela família de Winehouse.

— Com o documentário, mas não só, percebemos o risco de o legado de Amy ser pautado pela morte, pela dependência química e pelo alcoolismo. Por isso, nosso foco foi num dos maiores talentos musicais do século XXI e na mulher cheia de vida e de amor. Uma das críticas foi a de que era muito cedo para se fazer uma cinebiografia de Amy, mas queríamos filmar logo, antes que ficasse cristalizada a ideia de que a morte era maior do que a arte dela — diz a produtora.

Dedos também foram apontados a “Back to black” pela omissão de que o ex-marido foi quem apresentou à cantora as drogas pesadas. E também por não explicitar como o pai teria sido condescendente com o vício de Amy, então a principal fonte de renda da família e, como cantou ela, nada interessada em ir para o rehab: “No, no, no”.

— Não floreamos nem satanizamos Mitch. Se você transforma Amy em vítima e o pai em vilão, tira dela a autonomia — diz Eddie Marsan, que vive o personagem.

Na ficção inspirada em fatos, o vilão é a própria dependência química. Há espaço para se tratar da ligação de Amy com a avó paterna, que cantava jazz, mas pouco se fala da mãe e de amigos.

— Amy era uma adulta responsável por suas escolhas. Ficamos investigando a “culpa” da mãe do Jim Morrison ou do pai do Jimi Hendrix? — diz a produtora, que faz questão de negar censura da família a "Back to black".

A voz que segue arrepiando ouvintes nos dois discos que lançou em vida, “Frank” e a obra-prima “Back to black”, teria hoje 40 anos. Até sua morte precoce, em casa, aos 27, por excesso de álcool, Amy sofreu não apenas com a obsessão da imprensa sensacionalista, mas também por parte de seu público. Pessoas que iam a seus shows, como os de sua última turnê, no Brasil, em 2011, ávidas por capturar momentos de excesso, embriaguez, baixaria.

A produção de “Back to black” descobriu nas filmagens a venda de fotos tiradas sem permissão de Marisa Abela aos tabloides ingleses. Os responsáveis eram figurantes — ironicamente, nos papéis de paparazzi. Um dos efeitos do vazamento foram as críticas à protagonista, antes mesmo de se ver qualquer cena do filme.

Amy Winehouse — Foto: AFP
Amy Winehouse — Foto: AFP

Reação

Elogiada pela crítica profissional, a atriz de 27 anos, inglesa e judia como Amy, foi achincalhada nas redes, especialmente após o primeiro e desastroso trailer: “não se parece com Amy”, “estereotipada”, “trabalhada no auto-tune”.

Muito menos conhecida do público do que Rami Malek antes de encarnar Freddie Mercury, de Taron Egerton ao se transformar em Elton John, e de Austin Butler quando se debatia para encontrar seu Elvis Presley, a Yasmin da série “Industry” (HBO) avisou, na primeira conversa com a diretora: “Tem um problema, não sei cantar.” Pois aprendeu.

É ela quem canta no filme, inclusive na cena que recria a apresentação da faixa-título, feita com músicos que tocavam com Amy, na festa do Grammy de 2008, quando levou os prêmios de melhor cantora pop e de disco do ano. Impressiona.

— Mas o mais difícil foi ter certeza de que estava sendo íntegra e sincera à artista e à pessoa. O ícone, todos conhecem, mas o que deixava Amy arrasada? O que a fazia rir? — diz a atriz, que emagreceu paulatinamente nas filmagens, para sublinhar o efeito da dependência química na cantora.

Rir não é verbo associado de bate-pronto a Amy Winehouse, mas “Back to black” enfatiza o lado ácido da artista. Em uma cena, convidada para assinar contrato com a gravadora do superprodutor Simon Fuller, avisa: “Pense bem, não sou as Spice Girls.”

Não era. Na trilha sonora, há, entre outros, The Specials, The Shangri-Las, Billie Holiday, Dinah Washington, The Libertines e Minnie Riperton, o shake de jazz-soul-rock que foi o ABC de Amy Winehouse. Nick Cave e Warren Ellis compuseram 25 minutos de temas incidentais. E, no último dia de filmagem, apareceram com “For Amy”, que fecha o filme após o registro dos últimos momentos da cantora — outra cena que gerou controvérsia nas redes.

“Para Amy”, aliás, foi um lema que se repetiu nas entrevistas com os criadores de “Back to black”, ao justificarem o longa. É pena jamais se descobrir o que a parceira de Mark Ronson (em outra decisão discutível, o produtor central pra seu sucesso é apenas citado no filme) teria achado deste “Back to black”. E se Amy Winehouse tiraria sarro de tanta controvérsia.

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