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Cultura

Streaming aquece licenciamento de obras literárias brasileiras para adaptações audiovisuais

À procura de boas histórias, mercado se volta para ficção e não ficção recente
Marjorie Estiano e Júlio Andrade em cena de "Sob pressão", série baseada no livro do médico Marcio Maranhão e da jornalista Karla Monteiro Foto: Divulgação
Marjorie Estiano e Júlio Andrade em cena de "Sob pressão", série baseada no livro do médico Marcio Maranhão e da jornalista Karla Monteiro Foto: Divulgação

SÃO PAULO – Apesar da crise do mercado audiovisual brasileiro — ou justamente por causa dela —, cineastas, produtores e roteiristas andam cada vez mais atentos ao que chega às livrarias. Com as torneiras de financiamento público mais fechadas do que em outros tempos, apostas em histórias já escritas têm sido mais frequentes, gerando um boom de adaptações de obras literárias para o cinema e a TV.

— Antes, era eu que costumava mandar livros para as produtoras. Agora, muitas delas me procuram para ler o que vem sendo publicado – diz a agente literária Marianna Teixeira . — Esperava era uma desaceleração do licenciamento de livros por conta da diminuição dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, mas o interesse cresceu.

Os exemplos são muitos — e destaca títulos recentes. Na ficção foram comprados os direitos de “Cancún”, de Miguel Del Castillo , “Controle”, de Natalia Borges Polesso, “O amor dos homens avulsos”, de Victor Heringer , "Torto arado", de Itamar Vieira Junior, e “Sebastopol”, de Emilio Fraia . De não ficção, há obras como “Ricardo e Vânia”, de Chico Felitti, “Mariana: a história do maior desastre ambiental do Brasil”, de Cristina Serra, ou “Tudo ou nada: Eike Batista e a verdadeira história do Grupo X”, de Malu Gaspar. Não estranhe se nos próximos anos você se deparar com esses títulos quando for ao cinema, trocar de canal ou estiver navegando no menu do streaming.

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Capa de "Cancún", romance de Miguel Del Castillo a ser adaptado por Carolina Jabor Foto: Divulgação
Capa de "Cancún", romance de Miguel Del Castillo a ser adaptado por Carolina Jabor Foto: Divulgação

Nos últimos meses, Marianna licenciou “Cancún”, “O amor dos homens avulsos” e “Controle”, e conta que “Crocodilo”, romance de Javier Arancibia Contreras, vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) , tem despertado a curiosidade de produtoras.

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Em tempos de diminuição dos recursos públicos para o audiovisual, o que tem sustentado o intercâmbio entre as páginas e as telas são os investimentos das plataformas de streaming, como Globoplay, Netflix e Amazon. E não é só no Brasil. No ano passado, na MIPCOM, feira audiovisual realizada anualmente em Cannes, na França, a consultoria The Wit divulgou que o número de séries baseadas em livros aumentou 17% em 2019. Um terço desses livros eram não ficção. Nos serviços de streaming, as adaptações cresceram 26%.

— Vivemos uma crise enorme no financiamento público do audiovisual, mas ao mesmo tempo, cresce o investimento privado com a chegada de novos players ao mercado brasileiro – explica Clarisse Gullar, diretora de diretora de desenvolvimento de projetos e business affairs da Conspiração Filmes. – Há diversos serviços de streaming atuando no Brasil e outros que ainda vão chegar. De uns três anos para cá, se tornou necessário ter uma prateleira mais parruda, com livros licenciados que possam render histórias para o audiovisual.

Responsável por adaptações como a série “Sob pressão”, baseada no livro do médico Marcio Maranhão e da jornalista Karla Monteiro, a Conspiração também licenciou, junto com a RT Features, de Rodrigo Teixeira, os direitos “Ricardo e Vânia”, a ser filmado pelo diretor Andrucha Waddington . A produtora contratou recentemente um consultor para se manter a par das novidades mercado editorial e identificar tendências.

Livro bom = filme bom?

Ana Luiza Beraba, da Film2B, responsável por negociar o licenciamento de livros para o audiovisual, conta que a tendência já foi comédia e romance policial. Agora, são livros de não ficção que estão na mira para virar séries. Mas ela avisa: nem sempre um bom livro rende um bom filme ou uma boa série.

— Um livro não vai para o audiovisual só porque o autor é famoso ou porque ganhou prêmio. Os detalhes da história nem sempre são tão importantes, porque às vezes o produtor só está atrás de um personagem forte ou de uma premissa que possa transformar em outra coisa — diz. — Adaptar um livro em vez de partir de uma história original representa um risco menor para o produtor. Não que o roteiro que venha daí não possa ser ruim, mas ajuda já a partir de uma história com começo, meio e fim e personagens bem desenvolvidos.

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Maria Camargo, que assinou os roteiros da série “Dois irmãos”, baseada no romance de Milton Hatoum, e licenciou os direitos de “O amor dos homens avulsos”, lembra que não existe “livro que já vem pronto para virar filme”.

— Dá vontade de matar quando dizem isso. Já soube de gente que queria pagar menos pelo roteiro porque era baseado em livro – conta Maria, que está trabalhando em uma série baseada o romance “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, para o Globoplay. — Adaptar é fazer escolhas: ver o que funciona para o audiovisual, o que é estritamente literário e tem que ser cortado, onde inserir criações novas. Como diz o Milton Hatoum: é botar duas linguagens para ter uma conversa.

Cauã Reymond na série "Dois irmãos", adaptação do romance de Milton Hatoum Foto: Divulgação
Cauã Reymond na série "Dois irmãos", adaptação do romance de Milton Hatoum Foto: Divulgação

Para adaptar “Dois irmãos”, Maria leu o livro 30 vezes. “Um defeito de cor”, que tem quase mil páginas, ela já leu duas vezes.

Antes de “Cancún”, a cineasta Carolina Jabor havia lido o conto homônimo publicado em “Restinga”, livro de estreia de Del Castillo e, desde então, pensava em levar para o cinema a história de um filho e seu pai, de quem ele sabe tão pouco.

— Identifiquei em “Cancún” uma relação bonita de pai e filho e também um universo imagético que podia levar para a tela – diz Carolina. — O que me atrai nas histórias é a ambiguidade dos personagens.

Diretora dos filmes “Boa sorte”, baseada em um conto de Jorge Furtado, e “Aos teus olhos”, adaptação de uma peça do catalão Josep Maria Miró, Carolina confessa que, nos últimos tempos, tem preferido ler ficção a assistir a séries.

— Estamos sempre se atualizando, indo atrás de autores com quem a gente se identifica. Nosso trabalho é contar histórias.