Economia

Bitcoin sobe na véspera de El Salvador adotar criptomoeda como oficial

Movimento em redes sociais estimula compra da moeda digital para apoiar legislação. No país, iniciativa é recebida com ceticismo pela população
Bitcooin: queda vertiginosa Foto: AFP
Bitcooin: queda vertiginosa Foto: AFP

NOVA YORK - Um movimento crescente em redes sociais pede para que os internautas comprem pequenas quantias em bitcoin para apoiar o plano de El Salvador de usar a criptomoeda como moeda oficial a partir desta terça-feira, 7 de setembro. O país adota o dólar há 20 anos.

O presidente salvadorenho Nayib Bukele afirmou em uma rede social nesta segunda que o país comprou os 200 primeiros bitcoins. Ele confirma ainda que, até a implementação ofiical da moeda nesta terça, os corretores do governo vão realizar novas compras da criptomoeda.

Usuários no Twitter e no Reddit estão discutindo planos de compras em massa do equivalente em bitcoin a US$ 30 para marcar a entrada em vigor da lei em El Salvador. O potencial de compras coordenadas ecoa campanhas on-line como a que levou à disparada de preços da GameStop no começo deste ano.

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Aparentemente, investidores no Brasil e no mundo todo estão planejando converter o equivalente em suas moedas locais a US$ 30 em bitcoin nesta terça-feira para comemorar a legislação que adota legalmente a criptomoeda de código aberto e descentralizada.

Caixa automático com proteção do exército

El Salvador começou a instalar caixas automáticos de bitcoin para permitir que os cidadãos convertam o token em dólares, alguns protegidos pelo exército para evitar possíveis depredações. Além disso, o governo criou um fundo de US$ 150 milhões para apoiar conversões de bitcoins para dólares.

Os salvadorenhos poderão fazer o download da carteira digital "Chivo" do governo, inserir seu número de identidade e receber US$ 30 em bitcoins, informou o ministro das Finanças de El Salvador, Alejandro Zelaya, à imprensa local no mês passado. A carteira é necessária para fazer compras e vendas em bitcoins.

O bitcoin tem operado em alta, subindo para quase US$ 52 mil nesta segunda-feira, para alcançar o maior patamar desde maio.

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A entrada em vigor da moeda digital como oficial no país tem sido recebida com forte ceticismo e advertências de economistas e organizações financeiras internacionais.

Salvadorenhos preferem dólar

O governo de Nayib Bukele garante que a medida polêmica contribuirá para a bancarização da população e evitará uma perda de US$ 400 milhões nas remessas que os salvadorenhos enviam do exterior e que representam 22% do PIB, embora alguns especialistas questionem.

Em El Salvador, que dolarizou sua economia há duas décadas, a maioria dos 6,5 milhões de salvadorenhos rejeita o bitcoin promovido por Bukele e prefere continuar usando o dólar, segundo as últimas pesquisas.

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"Esse bitcoin é uma moeda que não existe, é uma moeda que não vai favorecer os pobres e sim os ricos, porque o pobre, que mal tem pra comer, não pode investir", comentou à AFP José Santos Melara, veterano da guerra civil (1980-1992) que na sexta-feira participou de um protesto contra a criptomoeda.

Sete em cada dez salvadorenhos indicaram que "discordam ou discordam veementemente" do bitcoin, que circulará ao lado do dólar, apontou uma pesquisa recente da Universidade Centro-Americana (UCA), que consultou 1.281 pessoas em meados de agosto.

Dos mais de 1.500 consultados em outra pesquisa do jornal La Prensa Gráfica, 65,7% disseram que desaprovam a criptomoeda.

Cerca de 2,5 milhões de salvadorenhos moram em outros países, principalmente nos Estados Unidos, e em 2020, enviaram ao país cerca de US$ 6 bilhões, equivalente a 23% do PIB do país.

Para o alfaiate Julio Ramirez, que recebe transferências de duas filhas que moram na Califórnia, nos Estados Unidos, a medida não vai fazer diferença para a família, que não pretende adotar o bitcoin por desconfiança.

— Elas disseram que não vão mandar dinheiro dessa forma porque acreditam que podem perder dinheiro, que não vai chegar até mim. Não estamos planejando nos arriscar em nenhum momento — afirma o alfaiate de 60 anos, que mora em um município pobre a 19 quilômetros da capital, San Salvador.

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A diretora do Instituto de Opinião Pública da UCA, Laura Andrade, garante que a população resiste ao bitcoin por não considerá-lo uma forma de melhorar sua situação econômica.

"São decisões sem consulta que este governo têm tomado em conjunto com os legisladores, e que as pessoas não percebem um impacto positivo para transformar significativamente suas condições de vida", apontou Andrade à AFP.

Aceitação obrigatória

Por lei, o bitcoin terá "poder libertário ilimitado em qualquer transação".

A lei estabelece que o câmbio entre o bitcoin e o dólar "será livremente estabelecido pelo mercado" e obriga "a aceitar o bitcoin como forma de pagamento".

Economistas e organizações como o Banco Mundial, o FMI e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) são céticos quanto à adoção do bitcoin como moeda ao lado do dólar.

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Terá um "impacto negativo" nas condições de vida da população dada a "alta volatilidade da cotação" e "afetará os preços de bens e serviços", afirma o economista Óscar Cabrera, da Universidade de El Salvador.

O fato de ser determinado "exclusivamente pelo mercado" torna o bitcoin "altamente volátil", alertou a Fundação Salvadorenha para o Desenvolvimento Econômico e Social (Fusades).

A Fundação também considera "inconstitucional" impor "a aceitação obrigatória do bitcoin como forma de pagamento quando oferecido" em qualquer transação econômica.