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Por Marcia Disitzer

A icônica afirmação de Simone de Beauvoir — “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” — sintetiza o turbilhão de transformações e descobertas pelas quais Sophie Charlotte, de 33 anos, vem passando nos últimos tempos. A atriz, que nasceu em Hamburgo, na Alemanha, veio para o Brasil aos 8 anos e despontou para o grande público em 2007, em “Malhação”, da TV Globo, avançou na carreira e rompeu limites profissionais, sem abrir mão de um traço quase palpável da sua personalidade: a responsabilidade.

Sophie Charlotte: top Rodrigo Evangelista, tanga Gustavo Silvestre, calça vintage New Division, colar Victor Hugo Mattos e sandálias Alexandre Birman — Foto: Mariana Maltoni
Sophie Charlotte: top Rodrigo Evangelista, tanga Gustavo Silvestre, calça vintage New Division, colar Victor Hugo Mattos e sandálias Alexandre Birman — Foto: Mariana Maltoni

Para falar sobre os filmes que lançará este ano — “O rio do desejo”, com direção de Sérgio Machado, baseado em conto do escritor amazonense Milton Hatoum e estreia marcada para 23 de março; “Meu nome é Gal”, dirigido por Dandara Ferreira e Lô Politi, que será lançado dia 21 de setembro, aniversário da cantora baiana; e “The killer”, de David Fincher, que chegará à Netflix em novembro — e também sobre a segunda temporada da novela “Todas as flores” (Globoplay), foram necessários dois encontros por meio de chamadas de vídeo. Em ambos, Sophie enfatizou palavras como “processo”, “revolução” e “potência”. Além de projetos profissionais, a atriz também discorreu sem rodeios sobre o casamento com o ator Daniel de Oliveira, a potência da maternidade e o desejo de aumentar a família. “É difícil essa escolha, mas eu quero (um segundo filho, ela já é mãe de Otto, de 6 anos). Porém, acompanho mulheres com mais de 35 que levaram um susto (por não conseguirem engravidar), que poderiam ter congelado os óvulos se tivessem tido mais informações. Deveríamos falar mais sobre esse assunto, debatê-lo. Ainda não congelei meus óvulos, mas penso nisso. Farei 34 e tenho muito trabalho em 2023”, conta.

A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Como foi interpretar a Gal?

Para além das voz de cristal, é um farol para todas nós, mulheres. Como artista e também pela revolução a qual ela se propôs, tantas vezes, durante a carreira. Também me impactou muito resgatar aquele

Top Adriana Degreas na NK Store, saia Ateliê Mão de Mãe e colar Sauer — Foto: Mariana Maltoni
Top Adriana Degreas na NK Store, saia Ateliê Mão de Mãe e colar Sauer — Foto: Mariana Maltoni

tempo histórico, que é o recorte do longa (o filme retrata as vivências da cantora no final dos anos 1960 e início da década de 1970). Gal segurou a bandeira do tropicalismo enquanto Gil e Caetano estavam exilados, viveu a liberdade na contenção da ditadura. Fez uma revolução na praia, com o corpo livre sob o sol. Esse desbunde foi ligado a um contexto específico. Foram quatro anos de pesquisa em que a conheci, aproximei-me ainda mais de Salvador, vi de perto o bairro da Graça, assisti a todos os seus shows e ouvi compulsivamente seus discos. Gal é tão múltipla, ela tornou-se um farol na minha vida. Sou outra: nunca mais falarei do feminino da mesma maneira.

Você citou o tempo histórico do filme, que foi a época do desbunde, do corpo livre, de drogas, das dunas da Gal. Você já desbundou?

A minha geração está aprendendo com a que está chegando agora, que tem algo que se aproxima mais da geração da Gal. A minha é muito careta (risos). Sempre fui muito responsável e ligada ao trabalho. Não sei se me dei esse espaço. Mas também acredito que não seja algo, necessariamente, ligado aos 18 anos. Dá para viver o desbunde em qualquer época da vida.

Quais gavetas a Gal abriu dentro de você?

A atriz Sophie Charlotte usa vestido Paco Rabanne para NK Store, sandálias Valentino e bracelete Laura Cangussu — Foto: Mariana Maltoni
A atriz Sophie Charlotte usa vestido Paco Rabanne para NK Store, sandálias Valentino e bracelete Laura Cangussu — Foto: Mariana Maltoni

Muitas e continuará abrindo. Provocou um exercício de entendimento e desconstrução do que se espera do feminino. Mulheres como ela são absolutas, isso vem naturalmente. Outras vão evoluindo para se tornarem exatamente quem são e se tornarem sua máxima potência. Estou me repassando nessa conversa quase de análise (risos)... Talvez o meu desbunde ainda chegue.

Já fumou maconha?

Claro! Minha relação com as drogas é muito suave, nenhuma delas me pegou. Mas faço questão de falar sobre esse assunto de maneira responsável porque a adicção química é muito arriscada e grave. Tenho amigos que, por vários motivos, não fizeram um caminho tão legal. Na minha vivência, foi tudo certo.

Antes de “Meu nome é Gal”, chega aos cinemas o filme “O rio do desejo”, rodado na amazônia. É uma trama densa (a personagem de Sophie se envolve com três irmãos). Como foi a experiência?

Vestido Gustavo Silvestre, cinto Victor Hugo Mattos, brincos Sauer e sandálias Alexandre Birman — Foto: Mariana Maltoni
Vestido Gustavo Silvestre, cinto Victor Hugo Mattos, brincos Sauer e sandálias Alexandre Birman — Foto: Mariana Maltoni

É uma tragédia amazônica. A força do filme é relacionar-se com o que existe de mais humano em nós, tem uma crueza que não passa por filtros do Instagram. A régua da minha personagem, Anaíra, é a do desejo, ela é uma mulher desejante e não objeto de desejo desses irmãos. E como é importante voltar os olhos do audiovisual para áreas menos retratadas do Brasil. A Floresta Amazônica é tão valiosa, precisamos defender os povos originários. Retomar as rédeas dessa democracia ativa com possibilidade ética, para mim, é voltar a respirar. Estou feliz pelo fato de o filme estrear neste momento do país.

Tem ainda a sua estreia no mercado internacional e a segunda temporada de “Todas as flores”.

Já filmamos “The killer”. Saí três vezes do Brasil para isso. É uma personagem com poucas cenas, mas foi um sonho trabalhar com o David (Fincher). Fui recebida com muito carinho por todos. Sobre a novela, que encontro massa tive com a Letícia (Colin) e a Regina (Casé). É lindo quando se estabelece o momento cênico entre atrizes, amo as duas.

Você contracena com Daniel (de Oliveira) em “O rio do desejo”. Como é trabalhar junto?

m desafio. Nossos encontros em cena são sempre muito potentes, mas temos jeitos diferentes de atuar. Sempre fui muito do estudo, da disciplina. Na novela “O rebu”, a gente ensaiava e, quando começava a rodar, ele parecia outra pessoa. Cada ator tem um processo. Não fico o dia inteiro dentro da personagem, mas tirar todas as “peles” é árduo, me demanda suor físico e emocional.

Vocês estão casados desde 2015 e tem um filho, Otto, de 6 anos. Como lidam com as crises?

Depois deste tempo todo, o mais legal é desdobrar os vínculos que temos. Daniel é meu parceiro amoroso, pai do Otto, pai dos meninos (Raul, de 15 anos, e Moisés, de 12, do casamento com Vanessa Giácomo), meu roomate... São muitas relações e cada uma delas tem suas questões. No decorrer da vida, é necessário entender qual precisa de ajustes. Já passamos por crises brabas, mas faz parte. O entendimento do desejo é uma dinâmica de espaço e tempo. Há momentos de aproximação, outros de afastamento. O importante é se escutar, manter a admiração e a vontade de estar perto.

Você é ciumenta?

Sou. Mas entendi bem nova que, se deixasse meu ciúme solto, isso seria um gatilho. Fui conseguindo afrouxá-lo. Faço terapia desde os 29 anos.

O que a maternidade mudou na sua vida?

Vestido Raquel de Carvalho e corset Minha Vó Tinha — Foto: Mariana Maltoni
Vestido Raquel de Carvalho e corset Minha Vó Tinha — Foto: Mariana Maltoni

Foi como atravessar um portal. O amor materno, para mim, foi absoluto. Ninguém me contou sobre a paixão, inversamente diferente da romântica, que cresce de acordo com o desenvolvimento da criança, por meio da nossa troca. Tive uma gestação potente, meu parto foi avassalador, domiciliar e sem anestesia, derrubou pilares e levantou novas fundações. É também um processo solitário, ninguém passa por você. Tive um pouco de baby blues, mas estava muito bem amparada.

Já fez aborto?

Não, só engravidei uma vez, de Otto. Mas sou absolutamente a favor do direito das mulheres nessa decisão.

Desejam ter um segundo filho?

É difícil essa escolha. Eu quero. Porém, acompanho mulheres com mais de 35 anos que levaram um susto (por não conseguirem engravidar), que poderiam ter congelado os óvulos se tivessem tido mais informações. Deveríamos falar mais sobre esse assunto, debatê-lo. Ainda não congelei meus óvulos, mas penso nisso. Farei 34 anos e tenho muito trabalho em 2023.

A atriz Sophie Charlotte — Foto: Mariana Maltoni
A atriz Sophie Charlotte — Foto: Mariana Maltoni

Como é educar um menino hoje?

Meu objetivo é dar uma educação antirracista, falar abertamente sobre a questão de gênero. É um exercício constante desconstruir o imaginário misógino. Minha relação com o meu pai (o cabeleireiro paraense José Mário da Silva, que morreu, em 2021, aos 62 anos) foi muito forte e linda. A referência dele me ilumina por meio de memórias, momentos, cartas e também da genética, quando olho para o meu filho. Penso, muitas vezes, qual seria o conselho que ele me daria na educação de Otto. Isso não significa, necessariamente, que eu o seguiria porque vivemos outro tempo. E isso não é deixar de amar: é saber seguir.

Assistentes de fotografia: Gabriel Yoneya e Pedro Bodick. Beleza: Dindi Hojaj. Assistente de beleza: Raquel Teixeira. Assistência de moda: Maju Bergamaschi e Ottavia Delfanti.Produção de moda: Gabriel Saraiva.Produção executiva: Kariny Grativol. Assistente de produção: Rosely Grativol. Tratamento de imagem: Bruno Rezende. Camareiras: Linda Soares e Gabi. Agradecimento: Estúdio Damas.

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