Noruega liberta da prisão desertor do grupo paramilitar russo Wagner

Em raro caso de deserção, Andrei Medvedev conseguiu cruzar a fronteira entre Rússia e Noruega e prometeu expor crimes de guerra de Moscou

Por AFP — Ullensaker, Noruega


Imagem de vídeo de Andrei Medvedev, ex-comandante do grupo Wagner, em esconderijo secreto do grupo de direitos humanos Gulagu.net UTA TOCHTERMANN/AFP

A polícia da Noruega anunciou, nesta quarta-feira, a libertação de Andrei Medvedev, ex-comandante de uma unidade do grupo paramilitar russo Wagner, que há 15 dias buscou asilo no país nórdico após desertar no campo de batalha ucraniano. Para grupos de direitos humanos, o depoimento do militar pode ser crucial para as investigações do Ocidente sobre os crimes de guerra cometidos por Moscou na Ucrânia.

A informação foi confirmada por Jon Andreas Johansen, um dos porta-vozes da polícia migratória norueguesa, em e-mail enviado à agência AFP. Na nota, a instituição afirma que "libertou Medvedev do centro de detenção para estrangeiros Trandum hoje [quarta-feira], na condição de que ele fique em um local específico".

Medvedev, 26 anos, foi detido no último domingo por violar a lei de imigração da Noruega. Segundo seu advogado, Brynjulf Risnes, a prisão foi motivada por "brechas nas normas de segurança" para sua permanência no país.

Tanto a polícia quanto Risnes descartaram a hipótese de extradição para a Rússia. Em entrevista à ONG Gulagu.net nesta semana, o ex-comandante disse que temia por sua vida caso voltasse ao país, sobretudo após a execução de um de seus supostos subordinados, Yevgeny Nujin. O soldado, que foi rendido e interrogado pelas forças ucranianas em setembro, foi morto a marretadas pelo grupo paramilitar, sob acusação de traição, após ser devolvido em uma troca de prisioneiros.

Medvedev, que cresceu em um orfanato siberiano e cumpriu pelo menos quatro anos de prisão por roubo, disse que testemunhou na linha de frente execuções sumárias de combatentes do Wagner acusados de covardia e deserção, bem como taxas dramáticas de baixas sofridas por unidades de prisioneiros enviadas por comandantes para missões suicidas. As afirmações, no entanto, não puderam ser verificadas.

De acordo com o ex-mercenário, antes de desertar em novembro, ele comandou por quatro meses cerca de 15 combatentes do grupo Wagner, em sua maioria prisioneiros, ao redor da cidade de Bakhmut, no Leste da Ucrânia. Medvedev, então, cruzou ilegalmente a fronteira entre a Rússia e a Noruega no Ártico, pelo rio gélido que separa os dois países, próximo à cidade de Nikel. Segundo ele, travessia foi feita enquanto agentes russos atiravam e o perseguiam com cães.

— Corri e corri e corri numa superfície gelada até chegar à primeira cidade [norueguesa] e pedir ajuda — contou ele em mensagem gravada em vídeo.

Após encontrar asilo na Noruega, Medvedev disse que estava disposto a falar sobre a brutalidade do grupo Wagner — testemunho considerado potencialmente valioso para as investigações sobre os crimes de guerra dos quais a Rússia é acusada de praticar na ofensiva à Ucrânia. Na última sexta-feira, o grupo privado aliado ao Kremlin foi classificado pelos EUA como uma "organização criminosa" internacional, destacando as violações aos direitos humanos praticadas na ofensiva.

Risnes, advogado do desertor, contou que também ficou detido em um local secreto após "tensões" com policiais responsáveis pela proteção do seu cliente. Para ele, o caso pode abrir um precedente sobre como o Ocidente lida com a deserção de combatentes russos.

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